O calor nos trópicos
a ponto de extinguir a raça humana
E eu só quero mais um pôr-de-sol
Ver a lua de lava nascer no sudeste da Praia Vermelha
só mais uma vez em junho, julho, algo assim
Quero entregar meu corpo frio ao leito de um rio
e me fazer correnteza,
sentir meus poros mais uma vez
habitando as veias da minha mãe
que sim vai acabar, mas antes
vai saber que sou dela em corpo e lágrimas
Quero a audição sentida de um último cantarolar de pássaros,
em canção lamuriosa pela destruição impingida
Há muitos de nós que sentem muito,
mas não o suficiente para revolucionar e parar as máquinas
Já se fala em dano irreversível
e [des]cuidados paliativos
Ninguém pensa em reduzir a tragédia do mundo
Estamos já nos arrumando para o baile de gala em Marte ou na Lua
Sabe-se lá qual próximo astro vai inaugurar o novo cenário de devastação
Isso se sobrevivermos à viagem
ou a ebulição global não nos matar antes
Já sinto o cheiro das águas de março
empenhadas em exterminar o verão,
em destruir os sonhos de moradia de uma população,
que pensa em suas casas de tijolos e esquece de sua casa de Terra
Pudera, a pobreza não tem tempo para o longo-prazo;
a riqueza nem ao menos sabe o que é um prazo
As águas de março empenhadas:
em ser o ensaio para a próxima era diluviana
E eu, antes, somente quero
sentir a textura de terra molhada na sola dos pés,
o vento gelado que corre nos 12% que restam de mata atlântica,
sentir a vibração do solo quando uma semente eclode,
sentir a brisa sutil gerada por um bater de asas,
ou o deslocamento do ar quando uma pétala se abre
apenas uma última vez