Não, não quero nada
Por ora, nada me agrada
Não a ponto de me fazer levar
Estou dizendo não
Ao consumismo, à ditadura do ter
Não quero ter nada só para ser mais que nada
Quero apenas ser; ser de existir
Fixar existência neste terreno multicamadas

Um alívio a Terra não ser plana (nada como o óbvio)
Repara: terra plana superficializa a conversa
Agora fazem até sentido esses contemporâneos
Liquidando os aprofundamentos
Liquefazendo as relações e os afetos
Ora, ora, uma Terra plana lhes é bem conveniente
Ah, mas não!

Não vão nos tomar a terceira dimensão
Tirem as mãos da nossa profundidade
Ninguém levará nossos abismos
Tanto os de baixo quanto os de cima
Afinal, continuaremos a mergulhar
Seja nos 7 infernos de Dante
Seja nos 7 céus de Maomé

Ninguém nos impedirá de cair
Ininterruptamente nesta toca de coelho
Que é a existência
Ou o íntimo, ou o que quer que seja
A subjetividade individual particular
Single e solteirona de cada ser humano
Será fincada, camada por camada
Até o núcleo do sujeito
Com todos os seus predicativos
Os objetos diretos e, sobretudo, os indiretos
Também os advérbios e os adjetivos, bons ou maus
E ainda as locuções! porque urge ter voz

Aliás! esqueça-se o ter, urge: ser voz
Ser voz que ecoa, que afunda, que penetra
Timbre que arrepia o sexo do mundo
E fertiliza-o com liberdade
Sementes de uma Terra mais garrida e aguerrida
Sepultura do Ter; e berço do Ser

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