O primeiro verso me veio num grito
Eu-estava-be-lís-si-ma
de um azul flutuante
Os seus olhos,
os seus olhos me atravessaram.
Mas não era um atravessamento poético
de dedilhar-me as cordas da alma.
Era um atravessamento de nó na garganta.
Era quase um atropelamento
com perda total da existência.
Minha invisibilidade exposta na via pública.
E eu estava be-lís-si-ma
de um azul radiante
Um brilho nos olhos que rastejava ser notado
Agonizava num mar de um azul desesperante
Clamando uma existência, algum jeito de ser.
Um atravessamento do tipo afogamento
Afogada em desafagos.
Nos teus olhos uma trave de vidro opaco
nada refletiam. Eu inteira uma interrogação,
Onde estava Eu?
Eu? eu estava em estado de Beleza
Envolta num azul turquesante
Pronta para a sorridente fertilidade
de quem espera ser notada, admirada
questionada, escrutinada, alvo: de interesse.
A pessoa mais importante da face da Terra
da face esmurrada da terra
da face pisada e manchada de sal e de sol
Mas a mais importante:
A flor que brota do asfalto.
Eu só queria ser toda beleza que julgava ser
Eu só queria estar belíssima
Ah! Eu estava be-lís-si-ma!
Eu podia gritar até ensurdecer e ma-tar
a indiferença latente de tantos Mersaults
que petrificam minha vontade de mim
que me roubam o único Eu que possuo
Eu: de um azul celestiante
Pairando por sobre o meu desejo de ser
Be-lís-si-ma.