É muito fácil amar pela manhã
Na bruma do sono insistente
Na areia dos olhos entreabertos
No corpo quase inerte
– salvo pelos sinais vitais –

Já amei assim sem amor
Digo-te logo, não há poesia nesse poema
só verdades ressecadas nos cantos dos olhos

É muito fácil amar pela manhã:
A cama, por exemplo, tem todo meu amor
A manta que me aquece e acolhe
Minhas plantas de folhas viçosas
Minha janela emoldurando os ventos e os sóis
Meu céu azul multitom – cores de horas que passam
Minha cortina de renda alva, onírica e esvoaçante
Meus livros, poucos, mas garimpados um a um

Meu amor preenche esse cenário
Todo dia, toda noite, quando estou
Todo dia, todo tempo, ou quando não estou
Entenda-me, acordo e estou em meu paraíso
Então de manhã não sei se te amo porque te amo
ou só porque é muito fácil amar pela manhã

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