Não houve planos. Pela primeira vez, meu raciocínio-engrenagem não soube como proceder e isso era embaraçosamente espantoso.
Eu era especialista em roteirizar, sempre senti a presença fria e tácita do fim, dos finais das minhas novelas. Banhada em lágrimas dissonantes, vi passarem por mim meus amores – pessoas e possibilidades – até perderem, ou não, seus status de amor. Sofria sem dó de sofrer. Eu era a inspiração etimológica da palavra sofrência, tão comum nas composições musicais da atualidade.
Em minha repartição, as lágrimas eram fiéis funcionárias, batiam ponto até em dias santos! Foi no feriado de 23 de abril de 2018 que eu me despedi de um casamento de nove anos e inúmeras impossibilidades. E, não pelo cônjuge, sim pelo conjunto da obra, chorei. Não é fácil fechar um livro com tantas páginas escritas, tantas seguranças já catalogadas e se aventurar em folhas brancas, fantasmagoricamente alvas. Com tinta e sem pena, continuei a escrever.
Quando um certo ele chegou, não tive mais forças para estar no controle. Logo eu, ah, eu não, socorro. Até um livro meu – até um livro! – voou de minhas incrédulas mãos e pousou nas dele com a naturalidade de um presente de aniversário. Suas páginas versavam sobre silêncio. Eu estava ali me entregando até na ausência de palavras, como um grito contido, mudo de perplexidade. Um mar de potências infinitas se abria para nós, e talvez isso carregasse uma intimidação inesperada e até assustadora. Minha voz se habituou a dizer que ele tinha potencialidades para ser o amor da minha vida. Deveras piegas, é claro. Esse discurso apenas ouvidos amigos guardaram. Até o “você sabe que eu já te amo” de um sonho que tive na primeira noite que dormimos juntos, até isso, ficou guardado comigo na pasta mental de sentimentos insanos.
Eu escancarei – mas muito – o nosso amor (havia aspas aqui, até elas se cansarem da minha indecisão de mantê-las e partirem à revelia), nossa história virou assunto, babado forte, “olha isso aqui, melhor ler pra entender”. Ora, a raridade era demais e, como rastro de pólvora, como reação em cadeia, não pode ficar presa nas nossas entrelinhas. Virou um livro aberto, uma “face news”, uma medida para bons encontros. Se vocês acham que eu sofri quando acabou com P, imagina quando acabar com B. Evidente como preto no branco.
Jamais lhe falei tão claramente sobre o labirinto em que me encontrava perdida depois do sem-fim de palavras, deliciosas palavras, que trocamos em delicadas e dedicadas cartas virtuais. Sim, eram verdadeiras cartas. Em tudo havia um viés idílico, quase como um sonho de uma noite de verão. Consonante até nisso, pois que era janeiro. A autoria poética folgava apenas nas inúmeras letras de músicas que serviram de porta-vozes para os sentimentos. Meus sentimentos.
“Meus sentimentos” é a expressão dualística perfeita para intitular este trecho de vida; um enredo solitário sem plateia, sem picadeiro, sem piedade, isso para ficar só no “P”. Monólogo fúnebre sobre a morte do que nem sequer nasceu: um aborto entregue à sorte num qualquer beco de memória. Tua lábia astuta travestida de dócil eloquência me enganou, mas nas entrelinhas me avisou, afinal tem uma beleza nas coisas que se transformam e somem. Incrível como o famigerado “bom demais pra ser verdade” parece fazer tanto sentido depois da sua passagem.
– Meus sentimentos pela sua perda. (Fim do ato.)
Foste tu uma espécie de “ele” tão lindo, estonteantemente belo. Só com o léxico, forjamos um exemplar de amor absurdo. Era um amor-semente, como todo amor saudável. Eu disse lábia astuta? Oh não, eu me enganei. Foram as mais lindas palavras articuladas a mim. Não posso ser injusta ou ingrata com tanta beleza nas falas porque isso seria pura leviandade. A poesia era o ar que nós respirávamos e depois que tu partiste, tudo aqui ficou tão triste e eu fiquei com o silêncio. Ainda bem que éramos velhos amigos, o silêncio e eu, e do insonoro fiz nascer um lirismo genuíno. Há certas ações que nos suprimem o ar e preenchem os vazios da voz.