Vontade de comer o mundo,
afogar num mar de suco ácido
toda amargura que vagueia sombria e pegajosa
em exaustas retinas de vívida opressão.
Engolir tristezas milenares,
ruminar polímeros de dor e convertê-los
em meros monômeros de esquecimento.
Catabolizar as fibras hipertrofiadas da iniquidade.
Justiça Enzimática.
Aprisionar no ventre toda fala torta que ignora o direito de outras vozes.
Aos poucos, bem aos poucos,
(a mudança exige urgência,
contudo mudar requer paciência)
digerir em silêncio os excessos.
Os excessos de toxicidade das espécies reativas.
Quando à sua forma mais primitiva
o tudo do mundo estiver reduzido,
a ressignificação das ruínas sociais
dar-se-á implacavelmente
como riso desenfreado, irrestrito, revolucionário.
A via de eliminação virá aos que a risada da justiça parecer macabra.
Não haverá espaço para os espaçosos.
Serão eles pesados, medidos
e considerados insuficientes
ao organismo da nova era.
Ignorada a alternância diária imposta,
os injusticeiros serão naturalmente expurgados. Quase por conta própria.
O ambiente será hostil àqueles que outrora hostilizaram seus semelhantes.
O novo SER homeostático será dono do mundo.
Do ser-tão ao ser-vir:
Entre substantivos e verbos equânimes,
nada escapará do compasso peristáltico do porvir.
