Acostumada a um sentir morno
– sem arrepios, sem frisson, sem entrega –
empedrado, engessado, enferrujado.
De coração a-pa-ga–d—o…
Tropeço. (leia de novo, pois falo do verbo)
E, trôpega, levanto-me: vacilante,
à guisa de rebento parido.
Em um mundo quente e iluminado,
inauguro a íris cansada de ser-cristal.
Ávida por fluidez,
em sede desértica de sentir.
Só Sentir.
– como há tanto nem um vislumbre há, !
– como condenado à solitária em banho de sol,
– como cego que experimenta a visão,
– como paraplégico voltando a deambular,
– como cético que descobre a fé.
Sentir…
Quase beirando a insanidade
– impossível, impensável, inenarrável.
Mirando um novo começo,
danço.
Só danço.
Eu sou a dança.
Nada mais há para ser ou fazer.
A Nova Era não exige compreensão,
não cobra roteiros, não lança prazos.
E não, definitivamente, não calcula seu alcance.
Ela se enfeita de todo o tempo que se pode chamar
“agora”,
nutre-se de detalhes, de vírgulas, de entrelinhas:
sombra das árvores,
arrepio dos ventos,
som dos pássaros,
gosto da chuva,
calor da pele,
respiração,
sussurros,
sorrisos,
olhares.
Repouso as pálpebras e, em longos goles,
tomo ciência.
Algo grandioso se aproxima, ganha terreno,
explora todos os limites, coloniza.
Tempestade anunciada.
Inevitável.
Garanto que uma lágrima nasceu.
(É prima dissonante da flor de Drummond,
que rompeu o asfalto.)
Não pude conter o medo.
Sopro de angústia no coração desgovernado
quase cessa o batimento,
sufoca a respiração,
emudece o brado retumbante
de qualquer peito-nação.
Eu quis gritar, !
Eu quis fugir, ! Ora, essa é a hora de.
Vá! Agora! Quer ir!? Vá!
…
Mas a alma não se moveu,
tampouco se move,
não se afasta um único milímetro-dúvida
da inebriante fonte geradora de todo
esse confuso amontoado de palavras.
Pois lá,
somente lá,
ela encontra
seu oásis de paz.
